Eleita no 35º Congresso da CNTE, professora sul-mato-grossense destaca protagonismo feminino, soberania nacional e resistência ao avanço da extrema direita

Por Karol Peralta
Eleita durante o 35º Congresso Nacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), a professora Fátima Silva tomou posse neste sábado (18), em Brasília, como nova presidenta da entidade para o quadriênio 2026–2030, marcando o retorno de uma mulher ao cargo máximo da Confederação após quase duas décadas.
A posse de Fátima Silva como presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação marcou um momento histórico para a educação brasileira. O ato ocorreu durante o 35º Congresso da entidade, realizado no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, reunindo mais de 2.300 delegados e delegadas de todo o país.
Eleita pela chapa “Unidade para Lutar e Conquistar”, Fátima sucede Heleno Araújo e se torna a segunda mulher a presidir a CNTE em toda a história da Confederação, depois de Juçara Dutra Vieira. A vitória expressiva, com 91,27% dos votos, consolida o apoio da base sindical a um projeto político centrado na defesa da educação pública, da democracia e da valorização dos trabalhadores da educação.
Em seu discurso de posse, Fátima conectou sua trajetória pessoal à luta coletiva da categoria. Ao relembrar suas origens, citou a música Sonhos Guaranis, destacando sua identidade fronteiriça. “Venho da fronteira onde o Brasil foi Paraguai”, afirmou, ao rememorar o início da carreira docente em Coronel Sapucaia (MS), região que definiu como parte do “Brasil profundo”.
Do chão da escola à liderança nacional
A trajetória de Fátima Silva no magistério começou em 1985, em escolas públicas de fronteira, marcadas por salários atrasados, falta de políticas públicas e precarização do trabalho docente. Foi nesse contexto que se formou sua consciência política e sindical.
A professora participou de greves históricas nos anos 1980, ajudou a fundar a associação local de professores e chegou à presidência da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS), cargo que ocupou entre 1996 e 2002. Também exerceu funções estratégicas na CNTE, como secretária-geral e secretária de Relações Internacionais, além de ter sido vice-presidenta da Internacional da Educação América Latina (IEAL).
Agora, assume o comando da maior confederação de educadores da América Latina levando ao centro do debate nacional a experiência do chão da escola e a articulação internacional em defesa da educação como direito social.
Protagonismo feminino e cenário político

A eleição de Fátima ocorre em um contexto de desafios para a educação e para a democracia. Em tom de alerta, a nova presidenta destacou o avanço da extrema direita, os ataques às instituições democráticas e as tentativas de mercantilização da educação pública.
“Não viveremos dias fáceis”, afirmou. Entre as prioridades da nova gestão estão a resistência à Reforma Administrativa, a garantia do Piso Salarial Profissional Nacional, a valorização da carreira e a defesa da liberdade de cátedra.
Fátima também ressaltou o peso simbólico de sua eleição para uma categoria majoritariamente feminina. “Não se trata apenas de ocupar um cargo, mas de reafirmar que as mulheres têm voz, têm história e papel central na luta sindical e na construção da educação pública brasileira”, declarou.
Articulação nacional e internacional
Com experiência em fóruns internacionais, a nova presidenta defendeu o fortalecimento das relações com centrais sindicais, sindicatos de base e entidades internacionais. Segundo ela, a soberania nacional, os direitos humanos e o multilateralismo devem orientar a atuação da CNTE nos próximos anos.
Ao encerrar seu discurso, Fátima sintetizou o espírito da nova gestão: “Legado não é passado. É projeção de novos caminhos de resistência, lutas, conquistas e esperança”.



